Sobre este blog

Este nome é facilmente interpretado como 'Mundo Idiota', o que não deixa de ser, visto que atualmente vivemos em um mundo do TER e pior, do PARECER TER / SER, enquanto o que devemos valorizar é o SER. Mas o nome tem outro motivo. Uma pessoa que defende sua pátria é chamado de patriota, numa analogia a pessoa que defende o mundo seria o MUNDIOTA.
 

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Advogado do diabo

Neste mês ganhou grande repercussão a morte de uma adolescente de 15 anos que ganhou dos pais uma viagem para a Disney. Ela passou mal lá, foi medicada, voltou a passear, e na viagem de volta passou muito mal e morreu em vôo.

E como todo acontecimento trágico, são feitas inúmeras reportagens, colhem-se depoimentos, apresentam conclusões e muitas vezes geram-se culpados. Ontem no Fantástico mostrou uma reportagem sobre o assunto, mostrando que ela estava mal, que não deveria ser autorizada a sua volta, que uma instrutora pediu para que as garotas se maquiassem e colocassem óculos escuros para evitar qualquer problema.

E em função destas informações parece que há pessoas que ‘mataram’ a menina, negligenciaram a saúde, ignoraram os riscos. Parecem ser pessoas extremamente más.

E é nesse ponto que farei o papel de advogado do diabo. Colocarei a descrição do termo, colhida no Wikipedia.

Antigamente, durante o processo de canonização pela Igreja Católica havia um Promotor da Fé (Latim Promotor Fidei), e um Advogado do Diabo (Latim advocatus diaboli), papéis desempenhados por advogados nomeados pela própria Igreja. O primeiro apresentava argumentos em favor da canonização o segundo fazia o contrário, ou seja, argumentava contra a canonização do candidato; era seu dever olhar cepticamente o processo, procurando lacunas nas provas de forma a poder dizer, por exemplo, que os milagres supostamente feitos eram falsos, etc.

O ofício de Advogado do Diabo foi estabelecido em 1587 e foi abolido pelo Papa João Paulo II em 1983. Isto causou uma subida dramática no número de indivíduos canonizados: cerca de 500 canonizados e mais de 1300 beatificados a partir desta data, enquanto apenas houvera 98 canonizações no período que vai de 1900 a 1983. Isto sugere que os Advogados do Diabo, de facto, reduziam o número de canonizações. Alguns pensam que terá sido um cargo útil para assegurar que tais procedimentos não ocorressem sem causa merecida, e que a santidade não era reconhecida com muita facilidade.

Hoje em dia o termo tem vindo a designar uma pessoa que discute a favor de um ponto de vista no qual não acredita, mas que o faz simplesmente para apresentar um argumento. Este processo pode vir a ser utilizado para testar a qualidade do argumento e identificar erros na sua estrutura.

A parte que destaquei é simplesmente para dizer que o motivo pelo qual faço é somente para analisar sobre outra óptica, e não porque creio que inocência ou culpa de alguém, ou que não me importo com a perda para a família.

Pela reportagem as quatro meninas passaram mal em um dia e foram avaliadas, porém uma ainda não estava 100%. Vamos supor, caso a agência de viagens a obrigasse a ficar internada (ou no hotel descansando), fazendo-a perder os passeios com os quais sempre sonhou e seus pais se esforçaram para conseguir o dinheiro necessário, e nada tivesse ocorrido com ela. Será que os pais não estariam criticando a agência pela rigidez no tratamento, não iriam pedir ressarcimento por proibirem sua filha de realizar o sonho da vida dela?

Falaram na reportagem também que uma pessoa com suspeita de pneumonia não poderia viajar. Se a agência de viagens segurasse a menina lá, a deixando internada pelo tempo que for necessário (não sei como funcionaria o seguro de saúde das viagens, se cobre somente no período da viagem ou mais que isso), e como perderia a passagem de volta, teria que pagar uma nova. Será que os pais não criticariam a rigidez, deixando a filha deles sem a companhia dos pais, em um país distante, e ainda mais tendo que pagar outra passagem?

As meninas também falaram que alguém da agência pediu para elas se maquiarem para se parecessem saudáveis e não correrem o risco de serem reclusas. Imagino que pessoas que ficaram alguns dias em extensos programas, longas caminhadas, filas, passeios, poucas horas de sono certamente estarão cansadas, possivelmente com ar até meio abatido. E se a agência não fala isso, e somente por um pouco de cansaço a menina ficasse lá, retida, enquanto toda a excursão retornava? Como se sentiriam os pais? Será que aprovariam tal medida, retendo uma pessoa simplesmente por ela estar cansada? Imaginem o tamanho do transtorno que isso provocará.

Como disse, não estou defendendo nenhum lado, somente fazendo perguntas. Sei que muitos acharão minhas perguntas descabidas, no entanto isso é normal, ainda mais quando envolve morte. E também e normal quando se está no calor do momento ou envolvido.

Talvez deste acontecimento surjam novas determinações para evitarem tal caso. Então será obrigatório um teste médico completo antes de viajar, um outro teste antes de retornar, ao menor sinal de mal estar deverá ficar fora dos passeios, aos cuidados de outros instrutores para que possam garantir que a pessoa nada faça. O que ocorrerá é um aumento dos custos, aumento da vigilância, diminuição da liberdade das pessoas.

É sempre preciso pensar nesta liberdade. Quanto mais quiserem fechar as possibilidades, por menor que sejam, menos liberdade teremos, mais controlados, mais satisfações teremos que dar, mais relatórios a serem preenchidos, mais burocracia, mais processos.

6 comentários:

Amigao disse...

Oi amigão,
concordo com você, mas tenho certeza que os pais vão dar um jeito de processar a agencia, o governo daqui e de lá, etc,etc.

Andrea Berger disse...

Perfeito o seu ponto de vista, e corajoso tê-lo exposto.
Muitas pessoas pensam assim, mas são poucas as que são capazes de divulgá-las.
Concordo com você, todas as questões devem ser consideradas, pois o que divulgado foi somente o apelo emocional. Realmente, tenho filhos, isso emociona, mas a justiça deve ter também um lafo racional a ser levado em conta.
Abraços

Arthurius Maximus disse...

A liberdade de escolha é importante. Mas é preciso entender que as pessoas envolvidas não tinham conhecimento para fazer as escolhas certas.

Longe de crucificar a empresa; mas, um cuidado maior deveria ter sido tomado (uma consulta a um especialista e o comunicado de que viajariam em pouco tempo, porexemplo). Medidas simples que poderiam ter salvado a vida de uma pessoa. Quanto aos custos envolvidos; nada que uma negociação com ospais não resolvesse.

Em minha opinião houve negligência. Ao omitirem dos médicos americanos que a menina viajaria em seguida a internação, a empresa mostrou má fé e assumiu o risco. A opinião final deveria ter sido dos médicos.

No máximo, ela deveria viajar com acompanhamento médico constante. O que não aconteceu.

angel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
angel disse...

angel disse...
Desta vez acho que a empresa, que opera ha tanto tempo e, já tem experiência mais que suficiente, foi ao menos "ingênua".
Já acompanhei muitas vezes alunos da escola onde trabalhava, em excursões.
É uma responsabilidade exponencial viajar com crianças. Todo cuidado ainda é pouco. Cem olhos não são o bastante para vigiar os pequenos, mil braços não são o bastante para protegê-los e, pedia aos céus que nenhum acidente ocorresse no caminho pois me sentiria responsável pelo resto da vida, caso qualquer coisa acontecesse com alguém.
A neglicência da empresa de fato aconteceu, talvez ela tenha "substimado" o estado real da garota que fez os passeios e parecia sempre bem.
Talvez os médicos não tenham atentado quanto ao possível vôo e, no caso ele também foi negligente, uma vez que era impossível naõ saber tratarem-se de excursionistas.
Perder uma filha nesta situação é traumático.
Eu também questionaria tudo e todos mas entenderia que se eu estivesse na situação deles também teria muitas dúvidas. Decidir nem sempre é fácil.
E, se a adolescente tivesse chegado bem e aqui, os pais a tivessem levado ao seu médico, ao hospital de sua confiança, não se sentirião todos muito melhores? Tudo é apenas suposições... SE...
Julgar culpados estes ou aqueles também não resolve, serve apenas de alerta para que outras empresas repensem seu modo de agir.
Esperemos que Deus conforte a família.
abraço
angel

Elaine dos Santos disse...

Excelente reflexão! As pessoas "fecham" os olhos para apenas um ponto de vista e "deu"!
Creio que vc tenha toda a razão sobre as eventuais críticas que viriam da permanência da menina fora do país, ainda que isso pudesse salvar-lhe a vida...esta é a nossa incompletude humana, não é mesmo?
Senhor advogado do diabo, penso que o senhor "foi aprovado" no ofício.
abçs :)